Por que a carta da Força do Visconti-Sforza me incomoda?
- Tati Santana

- há 6 dias
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A carta da Força é uma das mais icônicas do tarot. A sua imagem tradicional, com um homem ou uma mulher domando um leão, é cativante e logo nos remete à força e ao autocontrole necessários para lidarmos bem com as nossas emoções e com os desafios da vida.
Porém, quando observamos as versões desse arcano no Visconti-Sforza-Tarot, um dos mais antigos decks da história do oráculo, e no Rider-Waite-Smith Tarot, que é um dos mais populares nos dias de hoje, podemos perceber diferenças que mudam significativamente a mensagem que chega até nós.
E não é só isso. Comparar as duas cartas pode nos ajudar a compreender uma lição em especial do arcano que pode passar facilmente despercebida. Olha só:
Hércules e o Leão de Nemeia na carta da Força

Apesar de ser visto geralmente como um deck único, o Visconti-Sforza-Tarot é, na verdade, um conjunto de cartas suntuosas de baralhos diferentes de tarot criados em meados do século XV, na Itália.
A carta da Força, incluída nessa coleção, traz a imagem de Hércules matando o Leão de Nemeia, como a autora Rachel Pollack aponta em seu livro 78 Graus de Sabedoria. A cena remete a um mito greco-romano bem famoso que faz parte dos 12 trabalhos de Hércules. Mas o curioso é que, diferentemente do que acontece no mito, onde Hércules mata o leão com as próprias mãos, a carta mostra o heroi tentando destruir o leão com um bastão. Uma diferença que, ao meu ver, abre espaço para reflexões importantes em torno do simbolismo da carta.
Se a presença do mito na carta poderia apontar para a necessidade de termos coragem para entrar em contato com aquilo que precisamos enfrentar e, com essa proximidade, usar a nossa força para vencer, o aparecimento do bastão aponta para um distanciamento, quem sabe um estágio do mito onde o heroi ainda não descobriu como enfrentar devidamente o leão. E, dessa forma, a força parece ainda não estar sendo bem canalizada.
Talvez a mensagem real esteja nas entrelinhas: não se vence o leão dos instintos blindando-se atrás de um bastão. É preciso se aproximar, entrar em contato, mergulhar na dimensão do sentir, mesmo que com muito cuidado e uma base de razão, pois só dominamos bem aquilo que conhecemos.
Mas não para por aí: a presença do mito na carta da Força, ao meu ver, traz uma brutalidade que não se harmoniza bem com a visão em torno do arcano que mais se popularizou nos últimos tempos. A cena de Hércules matando o leão carrega um simbolismo bem distinto da imagem de uma mulher domando um leão com afeto, quase como se ele tivesse se tornado, diante dela, um animal domesticado.
A Força como um mulher que doma amorosamente um leão

A cena da carta da Força, no Rider-Waite-Smith Tarot, é bastante famosa entre tarólogas, tarólogos e entusiastas e se parece bastante com a de outros tarots antigos como o de Marselha. Mas essa imagem já era conhecida há muito tempo.
A autora Isabelly Nadolny conta em seu livro História do Tarô que “as representações de figuras humanas que seguram com as duas mãos a boca de um grande leão são antigas”, e cita a presença desta imagem em um fragmento de cerâmica do século VII e em uma peça tirolesa de bronze do século XII, além de uma alusão textual em 1295.
Mas o interessante na versão do RWS Tarot é que, se olharmos com cuidado, veremos que a mulher da carta não está exatamente abrindo a boca do leão com as duas mãos. Ela usa uma delas para acariciar a cabeça do animal, evidenciando uma forma de domar pautada muito menos na agressividade e muito mais na sensibilidade e na inteligência.
Ela sabe da força daquele leão, e por isso entende que não pode, simplesmente, tentar segurá-lo ou enfrentá-lo. Utilizando a força interior, o poder do afeto e o senso estratégico, ela se aproxima do leão não como quem quer destruir, mas como quem deseja integrar. E aqui temos um distanciamento ainda maior da carta da Força do Visconti-Sforza Tarot.
O segredo está em não reprimir

Colocando as cartas lado a lado e considerando as singularidades que acabamos de ver, podemos perceber aspectos e extrair lições muito importantes. Enquanto, no RWS, há uma mensagem de autocontrole sem reprimir o próprio leão interno que, simbolicamente, está muito ligado aos instintos, na carta do Visconti-Sforza Tarot, a mensagem parece ser muito mais de domínio por meio da repressão e da destruição, ainda que aspectos interessantes como força e coragem também estejam presentes.
É certo que o mito de Hércules com o Leão de Nemeia também traz a questão da integração da força selvagem quando o heroi, depois do seu ato, remove a pele do animal e começa a utilizá-la como roupa. Mas, ainda assim, não vejo essa versão da carta como uma boa tradutora da mensagem de autocontrole e integração saudável da força instintiva, especialmente porque o fragmento do mito retratado na carta tem muito mais foco na parte destrutiva do processo.
Não quero dizer, com isso, que uma carta esteja certa e a outra errada. Há muitas possibilidades de representação dentro do tarot, e as transformações são inevitáveis.
Mas me pergunto se essa mudança na forma de representar a carta da Força ao longo do tempo, com autoras e autores se inspirando em versões antigas mais “suaves” da alegoria da Força, foi fruto de uma consciência coletiva maior sobre o perigo de reprimir a própria natureza selvagem e a importância de exercer um autocontrole equilibrado. Afinal, um leão reprimido pode voltar ainda mais feroz. Mas isso é teoria para uma outra conversa!
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